sábado, 25 de abril de 2015

Por que (não) ensinar gramática na escola – Sírio Possenti


A Coleção Leituras no Brasil, em parceria com a editora Mercado de Letras, reuniu várias correntes de trabalhos e pesquisas que envolvem estudos relacionados a leitura e escrita, integrante dessa Coleção também o humorista e professor Sírio Possenti, com primorosa obra: Por que (não) ensinar gramática na escola.
O livro é uma excelente referência para docentes e discentes por vários motivos, quais sejam: I) o autor trabalha com o texto de forma crítica e irônica; II) provoca reflexão nos leitores; III) defende teses óbvias, através de justificativas convincentes e coerentes; IV) é dividido em duas partes, o que o torna mais claro. Na primeira, expõe questões fundamentais relativas à natureza e ao aprendizado das línguas, como o fato da escola ter por objetivo maior ensinar a seus alunos o português padrão. Na segunda parte, expõe e exemplifica os conceitos de gramática normativa, descritiva e internalizada, bem como apresenta excelentes sugestões de como trabalhar a gramática na sala de aula, incluindo os conceitos de erro e língua.
Atentando-se para questões um tanto interessantes tem-se, por exemplo, citações rápidas e divertidas de aulas de português, iniciadas por um conceito (mesmo que em pensamento) de que a escola deveria aumentar seu repertório de leitura... Outro exemplo interessante é o conceito de erro na perspectiva da gramática normativa, o autor apresenta, com modelos descritivos que erro é tudo aquilo que foge à variedade linguística que foi eleita como exemplo de boa linguagem, assim tem-se como exemplo: a forma de “pôr” que concorda com “eles” no pretérito perfeito do indicativo é puseram, e não “pusero”, “pôs”, “ponharam” ou “ponhou”.

Enfim, a obra representa as diferentes e maleáveis formas de tratar temas gramaticais normativos de maneira contextualizada e próxima a posição que se encontra o aprendiz.

domingo, 17 de agosto de 2014

Pedagogia da Educação Infantil - Novas proposições e análises sobre o texto Educar e Cuidar de Ana Beatriz Cerisara



              Denota-se após a leitura do texto Educar e cuidar: por onde anda a educação infantil?, com autoria de Ana Beatriz Cerisara, que as instituições de educação infantil tinham uma “falsa dicotomia”, por apresentarem um caráter tanto assistencial, quanto escolarizante.
              Conforme palavras da autora verifica-se que:

[...] de um lado, uma importação do modelo hospitalar/familiar e, de outro, uma importação do modelo da escola de ensino fundamental. Nesta dicotomização, as atividades ligadas ao corpo, à higiene, alimentação, sono das crianças eram desvalorizadas e diferenciadas das atividades consideradas pedagógicas, estas sim entendidas como sérias e merecedoras de atenção e valor[1].

              Ao analisar-se o processo educar/cuidar, a autora traça o histórico tanto legal, quanto contextual da figura feminina carregado pelo estereótipo da simbologia do “cuidar” que estende-se até a contemporaneidade, principalmente da figura da mulher como mãe.
              Com o advento da Carta Magna, em 1988, muitos aspectos tangenciados para a criança se alteram, e um de destaque é o da função da creche, que então não visa atender às necessidades da mãe (um local para deixar seu filho e ir trabalhar), mas sim a criança, como sendo um lugar de direito para a criança como sujeito da sociedade, assumindo com isso um nível de ensino institucionalizado como Educação Infantil.
              Percebe-se então que educar e cuidar representam uma interdisciplinaridade que deve ser realizada através de uma atitude humanizada, que respeite a instituição escola e suas diferentes funções e atores.
              Ao tratar da inclusão de creches e pré-escolas no ensino básico, Ana Beatriz Cerisara ressalta que estas instituições não se tornem:

Depósitos de crianças, substitutas maternos ou hospitais, também há clareza de que [...] não devem reproduzir as práticas sociais que têm sido desenvolvidas nas escolas de ensino fundamental [...] este é o quadro atual que se coloca hoje [...] a construção de uma Pedagogia da Educação Infantil que rompa com a Pedagogia Escolar tal como tem sido desenvolvida nas escolas de ensino fundamental[2].

              Dentre os desafios colocados, pela autora do texto, para que se realize essa Pedagogia da Educação Infantil, elabore-se uma questão de fundamental importância para a discussão, primeiro aspecto se a educação básica divide-se em três níveis de ensino: a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio, segundo se o termo educação, conforme acordado pela autora, designa muito mais que o termo ensino: “mais do que o nível de ensino, estas instituições devem realizar um trabalho contemplando e priorizando os processos educativos que envolvem as crianças como sujeitos da e na cultura”[3], por que então, não utilizar o termo educação para as outras 2 etapas de ensino? Assumindo com isso, nossa educação básica, um papel com maior intencionalidade e sistematização? Além de possibilitar à Educação Infantil de apropriar-se de práticas dessas outras 2 modalidades, unificando um sistema que possibilite de toda forma, proporcionar o aprendizado respeitando as especificidades que demandam da educação de crianças menores de 7 anos.
              A título conclusivo, mas de certa forma infindável para discussões, releva um questionamento a respeito da importância de uma política pública que carregue consigo a ideia do “educar e cuidar” não só para a escola como também para os alunos. É certo que definições de papeis e funções influem diretamente nas atitudes e ações dentro de uma instituição escolar, com isso coloca-se aqui a relevância que deve ser dada ao aluno como agente propositor e contribuinte dessas funções, ao verificar sua efetiva aplicabilidade e resultados.
              Ressalte-se este aspecto colaborativo da efetividade de políticas públicas, parafraseando trecho de ilustre autor da área da educação Dermeval Saviani, que através da pedagogia histórico-crítica releva que as políticas públicas precisam demonstrar um grau de continuidade, respeitando o aluno como sujeito, e não simplesmente agir e implementar metas, definir conceitos, estipular objetivos, para que estes se rompam em um próximo governo, ou seja, fazer da educação um alavanque político. O pensar em políticas deve caracterizar uma continuidade, inclusive avaliativa para verificação de sua efetividade[4].
              Desta forma, através de políticas efetivas e do respeito tanto do profissional quanto da criança, no tangente aos seus direitos fundamentais, podem simbolizar um caminho para a Pedagogia da Educação Infantil.




[1] CERISARA, Ana Beatriz. Educar e cuidar: por onde anda a educação infantil? v. 17, n. Especial, 21, jul./dez. 1999. Florianópolis: Perspectiva. p. 13.
[2] CERISARA, Ana Beatriz. Educar e cuidar: por onde anda a educação infantil? v. 17, n. Especial, 21, jul./dez. 1999. Florianópolis: Perspectiva. p. 15.
[3] Ibid. p. 15-16.
[4] SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica. 11. ed. São Paulo: Autores Associados, 2011. p. 109.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Fatores importantes na condução do processo de ensino-aprendizado em EaD

 

          Destaque-se, para um processo de condução do ensino-aprendizagem na EAD, as ferramentas utilizadas nesse sistema educacional, que devem ser construídas e pensadas de forma simplificada, ou seja, de fácil manejo e interpretação tanto para os profissionais envolvidos, quanto para os alunos.
           Outro fator são os Ambientes Virtuais de Aprendizagem, que devem abarcar todas as informações necessárias de forma a facilitar o entendimento das partes com o conteúdo que está sendo trabalhado. Relevando-se não somente o processo tecnológico, como também a funcionalidade didática e metodológica que deve estar embutida neste processo, respeitando os objetivos de cada projeto pedagógico dos cursos elaborados.
           As plataformas tecnológicas, também são de relevante importância, pois caracterizam-se como softwares desenvolvidos para favorecer os processos no AVA, utilizando para isso diferentes ferramentas que facilitam o manejo do sistema/ambiente educacional. São eles os responsáveis por tornar “acessível” e “fácil” a diversidade exigida para o ensino-aprendizagem dentro do ambiente educativo da EAD – além de comportar todos os conteúdos, é a ferramenta, que dá comunicabilidade entre as partes, como exemplo o acesso a link´s, conversações nos blog´s e mensagens, disponibilização de conteúdos on-line, filmes, livros virtuais (e-books/e-pub), entrevistas e demais interativas que o ambiente da internet proporciona ser utilizado como ferramenta de enriquecimento dos conteúdos trabalhados. A plataforma, precisa considerar essa inovação pedagógica, de forma a não-somente transmitir e disponibilizar diversidade de materiais como também conduzir o aluno à reflexão e a construção de novas e diferentes percepções sobre os conteúdos trabalhados.
É importante conhecer a diversidade de plataformas disponibilizadas para a EAD, bem como a forma como disponibilizam as ferramentas tecnológicas para o correto desenvolvimento das metodologias educacionais.
          Vale destacar, de forma conclusiva desta reflexão, algumas perguntas trazidas por Michael Moore e Greg Kearsley, na obra Educação a Distância, onde atentam para aspectos que devem ser ressaltados ao pensar na criação de um curso ou programa de educação a distância, quais sejam:
 
• Que conteúdo deve ser incluído?
• De que forma ocorrerá a sequência e a estrutura da matéria?
• Que mídias serão usadas para apresentar as diferentes partes do material?
• Que estratégias de ensino serão utilizadas?
• Quanta interação existirá entre alunos e instrutor e entre os alunos?
• Como o aprendizado será avaliado e que forma assumirá o feedback para os alunos?
• Quais métodos de produção serão usados para criar os materiais de ensino?
(MOORE; KEARSLEY, 2007, p. 107)
 
          Verifica-se que na condução do processo de ensino-aprendizagem é de fundamental importância que as metodologias e processos educacionais não sejam esquecidos ao se aplicar os processos tecnológicos. É preciso pensar em eficácia, sem esquecer na praticidade e agilidade que esta deve trazer aos envolvidos no processo educacional da EAD, de forma a aproximar ainda mais as partes, desinibindo até mesmo aqueles que encontram dificuldades/receios ao trabalhar com estes novos meios.
          O estudo a distância mostra-se como uma constante construção, pois todos os dias tem-se novas ferramentas que auxiliam e facilitam as diversas transições de conteúdo, com diferentes formas de serem trabalhados – desde o layout até as diferentes redações dos documentos.
          Portanto, para que o processo de ensino-aprendizagem se efetive na EAD é preciso ter como desafio e objetivo a participação ativa do aluno nos diferentes processos e proposições, disponibilizados nos AVA´s. A realização da EAD tangencia a participação efetiva do aluno dentro deste universo virtual, fazendo-o participar, interagir e dialogar, de forma próxima, com colegas e professores – a educação é a distância, mas as relações para o alcance da aprendizagem não.
  
 
REFERÊNCIA:
 
MOORE, Michael; KEARSLEY, Greg. Educação a Distância: Uma visão integrada. Tradução de: GALMAN, Roberto. São Paulo: Thomson Learning, 2007.

 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Resenha do texto: Orientador Educacional ou Pedagogo – Da importância do fazer pedagógico para a democratização do ensino - Autora: Selma Garrido Pimenta


 
A autora inicia o texto retratando o alto índice de evasão que perdura nas escolas públicas e lembra que somente os fatores externos não são suficientemente convincentes para justificar o crescimento destes números. Neste aspecto, destaca-se o questionamento da autora: “é possível ensinar aos alunos que se evadem, e que, não por acaso, são advindos das camadas sociais mais pobres?” Através desta indagação, que diz respeito a fatores e práticas internas da escola, que precisam e devem ser mudados, surge o desafio de ensinar superando estas barreiras.

Vale acrescer e destacar os seguintes aspectos de modelo ideal da educação com o entendimento de José Carlos Libâneo: “Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar em que ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a única prática, e o professor profissional não é seu único praticante”. (LIBÂNEO, José Carlos. Pedagogia e pedagogos, para quê? 12. ed. São Paulo: Cortez, 2010. p. 26.)

Nota-se que o desafio a ser enfrentado pela escola é ainda maior. E para que este objetivo seja atingido é abordada, por Pimenta, a atribuição do pedagogo, destacando o período em que o fazer pedagógico fora subdividido em três funções, quais sejam: a administração escolar, a supervisão pedagógica e a orientação educacional. Na tentativa de solução para tantas problemáticas, a autora analisa a prática do pedagogo, então denominado como orientador educacional.

Na luta pela emancipação das camadas menos favorecidas e pela diminuição no índice de evasão escolar, destaca-se o papel relevante da escola como transmissora do acesso ao saber. Pode-se perceber nas palavras de Dermeval Saviani duas concepções de teorias educacionais: “Na primeira, temos aquelas teorias que entendem ser a educação um instrumento de equalização social, portanto, de superação da marginalidade. No segundo, estão as teorias que entendem ser a educação um instrumento de discriminação social, logo, um fator de marginalização”. (SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. 41 ed. Campinas: Autores Associados, 2009. p. 3.)

Neste aspecto entra em questão a superação de condições de dominação trazidas pela autora com brilhantismo, nas quais o confronto entre as partes aluno/professor, criará novos saberes e novas interpretações de mundo.

A escola tem importante papel na socialização de seus saberes, através desta afirmação se desdobrará o texto em uma visão progressista da educação.

Para que os papeis de orientador e pedagogo sejam apresentados são enumeradas as funções de cada um. Primeiramente o papel do pedagogo: quanto à escola pública o pedagogo seria aquela pessoa disposta a enfrentar os problemas da democratização; busca de melhoria e oportunidades de acesso. Quanto à especificidade da escola tratar das articulações entre o que se aprende com o que lhe quer ensinar, tendo o domínio também de instrumentos e técnicas para que este processo aconteça. Quanto à prática docente encaixa-se a pedagogia crítico-social dos conteúdos e a importância do papel do professor no processo cultural; busca de resolução de contradições e entraves que barrem as propostas de serem efetivadas; articulação entre os diferentes modos de ensinar. Quanto aos especialistas na escola e a prática docente tem-se o objetivo de manter a especificidade da escola, evitando a resolução de conflitos/problemas através da fragmentação do trabalho; prática da escola tida como coletiva, implementação da interdisciplinaridade nas relações também; pedagogo na função não só administrativa, como também relacionado ao ato de ensinar, manejando instrumentos de articulação para que o processo se efetive.

Quanto às funções do orientador educacional verifica-se a responsabilidade, também, pela busca da democratização do ensino, não desvinculando-se do “ser pedagogo”, só que com uma visão geral no que se refere ao especificamente pedagógico na escola.

Denota-se que muitas das teorias e práticas específicas da orientação educacional podem ser úteis, desde que tomadas as devidas precauções, como a importância do autoconceito do aluno, na qual as opiniões deles devem se constituir como fatores estimulantes no processo da aprendizagem; a relevância das atividades de orientação de estudos compreendendo as dificuldades individuais e relativizando o fator cultural. Nas palavras da autora é possível identificar que esse “papel do orientador” esteja conectado ao professor.

Adentra-se neste momento para a especificidade da contribuição do orientador educacional, neste ponto a autora retrata que muitos destes profissionais acabam por atuar somente na seara psicológica, envolvente somente ao aluno, deixando de intervir e atuar através de processos de fundamental importância como o currículo, à metodologia e a avaliação.

Não há dúvidas de que o fazer pedagógico se concretiza na escola, com isso a importância do acompanhamento em relação aos conteúdos e a forma que estão sendo desenvolvidos, aproximando os diferentes contextos e culturas da sala de aula, daí a relevância do trabalho concomitante de assessoria no processo ensino-aprendizagem do orientador com o professor – diminuindo espaços entre a fragmentação (sincrética) e o conhecimento elaborado (sintético), até para que a avaliação se torne uma ferramenta efetiva e consonante com o processo de aprendizagem (passagem do estágio de senso comum para a consciência crítica dos conteúdos).

Percebe-se que na pedagogia crítico-social a avaliação não pertence mais ao professor, ao aluno ou ao sistema, como ocorriam, respectivamente, na pedagogia tradicional, escolanovista e tecnicista. Utilizar-se-ão instrumentos aquém da escola, sempre articulados às situações concretas na qual se esta inserido, verificando em que medida a prática conjunta dos educadores da escola, está possibilitando a apreensão crítica dos conteúdos por parte dos alunos.

O último elemento, mas não menos relevante, trazido pelo texto, diz respeito a metodologia, que em suma se define como um movimento entre as teorias-práticas-teorias. Esses movimentos caracterizam-se como a forma de acontecer da aprendizagem, ou seja, se tomará conhecimento não só de fatores internos ao ensino como também as predisposições do aluno em termos socioculturais e psicológicos. Para que a metodologia se realize de forma eficaz são analisados diversos fatores que partem desde a escolha do livro didático até sua efetiva aquisição crítica pelos alunos, durante este processo ocorrem questões de acompanhamento como: o professor propicia debate? Como os professores veem os alunos? Como se caracterizam os alunos das diferentes séries quanto a motivação, interesse, participação, estudo, organização? Quais as atividades que favorecem a memória? entre outras.

Verifica-se que a orientação metodológica requer inúmeras habilidades, de modo que o orientador será contributivo ao utilizar as teorias como referenciais somatórios para a verificação do processo de aprendizagem pelo professor.

A título conclusivo tem-se duas dificuldades que precisam ser enfrentadas, conforme expressas pela autora, a primeira refere-se a formação do profissional pedagogo, que precisa ser repensada; a segunda seria a real definição daquilo que realmente é função da escola em seu âmbito social. Portanto, a partir do momento em que for assumida a reforma interna da escola, ter-se-á efetivamente um sistema a serviço da democratização do ensino.